Vitório Gheno - UM HOMEM À FRENTE DE SEU TEMPO...
Quando o conheci, nossos pais usavam terno, não raro chapéu e suspensórios. Circulavam em sisudos Aero-Willys. Gheno tinha um Karmann Ghia vermelho e usava calças de igual cor. “Que homem bem diferente”, assim pensava à época. E isto há 40 anos. Reencontrei-o faz dez anos. E hoje somos amigos. Daqueles especiais. Dividimos o gosto pelo Grêmio e pelas telas. É nesta condição que escrevo. Vou fazê-lo com o coração. Não tratarei de arte. Não saberia. Outros já o fizeram com justeza e propriedade. Vou tratar do homem.
Vitório Gheno sempre foi alguém à frente de seu tempo. Talvez alguns possam tentar explicá-lo por certo nonsense presente, amiúde, em pessoas que trabalham com aquilo que trata do sensível. Coisa de artista... Mas é explicação menor, insuficiente para interpretar personalidade mais complexa. Não é por aí... O Gheno tem um marketing pessoal intuitivo que ele inventou quando nem se falava nisto. Trata-se de um instinto quase animal de sobrevivência. Sempre se diferencia dos demais. Com isto, é sempre observado. E mais, como descendente de imigrantes italianos, tem no trabalho uma constância frenética. E mais ainda, sempre produziu alucinadamente. E neste ritmo vive já faz mais de seis décadas. Este é o verdadeiro diferencial!
Arrisco-me a intuir que se Gheno tivesse permanecido no Rio de Janeiro e dedicado seu tempo exclusivamente às artes plásticas, hoje estaria entre os melhores nomes da pintura nacional. Não que do ponto de vista artístico tudo o que produziu não permita incluí-lo, mas falta-lhe o reconhecimento nacional do grande mercado do eixo Rio-São Paulo. Mas ele optou por viver aqui, na Leal e Valerosa Porto Alegre, esta provinciana cidade de quase dois milhões de almas. E aqui é mais difícil, que o digam os que procuram o reconhecimento de seus pares em qualquer setor de atividade.
E Gheno, multifacetado, multimídia, como falam hoje, artista plástico, artista gráfico, decorador de interiores, de hotéis, designer de mobiliário, aquarelista, retratista, publicitário, gravador, ilustrador..., ficou sempre entre nós. E nada de reconhecermos a presença daquele que, lidando com a beleza, com a estética, com a suavidade das formas, com os tons, nos permitiu instantes de raro contato com tão delicada sensibilidade. Mas isto não podia ficar assim!
Eis que em 1995, como que caída do céu, surge na vida de Vitório a Nádia. Chegou desconfiada, cabreira, como quem tivesse medo de entrar e sofrer. Mas veio para ficar. Logo se apresenta velada censura social a indagar sobre convivência tão díspar. Foi difícil. Eu lembro bem... Mas este anjo da guarda, estranha mistura de fêmea, admiradora, companheira e agora verdadeira “guarda-livros” de sua obra, pôs-se obsessivamente a juntar cacos esparramados nas cidades, pelo tempo, para reunir neste extraordinário mosaico que agora nos é dado conhecer – GHENO, ARTISTA PLÁSTICO – edição de arte desta documentalista e fotógrafa, Nádia Raupp Meucci, em justa homenagem, em vida, ao conjunto de sua obra.
Uma reconstituição notável de tudo aquilo que produziu. Uma apresentação impecável, aliada a fotos rigorosamente dispostas, com respeito a épocas e assuntos. Enfim, um trabalho de fôlego. E acho que não deve parar por aqui. Nesta sanha alucinada de tudo pesquisar e buscar deve ter sobrado muito material. Espero que, a exemplo dos filmes americanos, surjam Gheno, o Retorno; Gheno, A Obra Revisitada; Gheno... Eles merecem e nós, fãs-de-carteirinha, agradeceríamos.
Obrigado a ambos por este presente. Porto Alegre está começando a homenagear seu pintor vivo mais importante e estamos vendo nascer esta competente editora das artes plásticas brasileiras da qual, certamente, ainda vamos ouvir falar muito.
CLÁUDIO CORRÊA NORONHA
setembro 2006